Bonzinho só se fode. E ainda pede desculpas.
O bonzinho é aquele que sempre diz sim, que aceita tudo, que não reclama nunca... Um capacho ambulante. E eu sei disso porque eu sou esse cara. Não por virtude, mas por burrice emocional mesmo.
Não tô falando de ser uma boa pessoa, até porque eu sei que não sou! Mas ser gente boa é uma coisa e ser bonzinho é outra totalmente diferente.
O bonzinho não acorda com vontade de se ferrar, mas o universo olha pra ele e pensa:
“Hum… hoje tem.”
Eu pago almoço, dou carona, ajudo com mudança, fico de babá... já fiz até serviço que nem sei se era legal. E sabe o que eu ganho? Dívida não paga, fim de semana perdido, WhatsApp cheio de gente pedindo favor e a sensação constante de que eu devia ter nascido planta.
Aí acontece um fenômeno muito curioso: todo mundo some quando eu preciso de qualquer coisa. É tipo mágica, só que sem encanto, sem glitter e sem final feliz.
O bonzinho vive a ilusão de que se for legal com todo mundo, todo mundo vai ser legal com ele. Não vão. As pessoas vão sugar até ele virar pó e depois vão procurar o próximo bonzinho da fila.
O bonzinho tem a habilidade incrível de transformar qualquer pedido em obrigação moral.
"Ah, mas fulano precisa de ajuda..."
E os outros 150 contatos dele que também podem ajudar? Mas não, tem que ser você. Sempre você. Porque você é o "cara que ajuda". O mascote oficial da boa vontade.
As culpas que o bonzinho carrega são dignas de prêmio. Ele se sente culpado por dizer não. Se sente culpado se alguém fica chateado com ele. Se sente culpado até quando TEM RAZÃO. É tipo viver com um juiz invisível, aquele desgraçado que dá martelada e diz:
“Poderia ter sido mais bonzinho, hein?”
Tem gente que consegue dizer não e ninguém enche o saco! Mas quando o bonzinho tenta, vem aquele drama todo:
"Nossa, mas você sempre ajuda..."
"Pensei que podia contar com você..."
"Tá tudo bem?"...
E tem aquela clássica: o bonzinho acha que precisa explicar o "não".
“Não posso” deveria ser suficiente, mas ele inventa um TCC inteiro de desculpas que ninguém pediu. Enquanto isso, o resto do mundo manda um “não posso” seco, sem ponto final, sem abraço, sem nada e dorme tranquilo.
Há também os “predadores”. São os aproveitadores que sentem o cheiro do bonzinho a quilômetros. Mostrou um “claro, eu faço”, já era. Vão grudar que nem chiclete no cabelo. Você vai ganhar tarefa extra, bronca injusta, cobrança aleatória e convite pra happy hour onde vão te usar de motorista, e tu ainda vai pagar a conta porque “depois a gente acerta”.
Predador tem em todo canto: o amigo que só lembra de você quando precisa, o parente que só te procura quando está desesperado, ou o chefe que sabe que você não vai reclamar da sobrecarga.
E o bonzinho aceita. Porque se não aceitar, vai se sentir egoísta. E Deus me livre de ser egoísta, né? Melhor se foder calado do que parecer mal pra alguém que não pensa em você nem cinco minutos por ano.
O bonzinho também acredita que um dia será recompensado. Nem que seja pelo universo. Só que o universo não dá troféu pra quem se sacrifica. Dá trabalho, dá estresse e dá gastrite.
E eu não tô dizendo pra você virar um filho da puta insensível que manda todo mundo à merda. Não precisa. Mas, pensa... Dá pra ser legal sem ser otário (pelo menos eu acho).
O problema é que a gente confunde gentileza com obrigação. E não é.
Você não é obrigado a resolver a vida de ninguém. Você não é obrigado a estar disponível 24/7. Você não é obrigado a sacrificar seu tempo, sua paz e sua sanidade mental porque alguém decidiu que você é "bonzinho demais pra recusar".
Porque você sabe, que no final, o bonzinho se ferra. Fica sobrecarregado, estressado, sem tempo pra si mesmo, sem grana (porque tá sempre ajudando alguém), e ainda se sente culpado quando explode.
Enquanto isso, os aproveitadores já encontraram outro bonzinho pra sugar. E vida que segue.
O bonzinho não muda pelo bem dele. Muda quando cansa. Quando percebe que está fazendo o trabalho de cinco pessoas e recebendo agradecimento de meia.
E aí, sim, vem o dia em que o bonzinho solta o primeiro “não vou fazer isso”. E percebe que o mundo não acabou. Ninguém desmaiou. O Sol continua no mesmo lugar. E ninguém… NINGUÉM… deixou de gostar dele por causa disso.
Se alguém deixou, era predador. Pode ir. O diabo que carregue.
E eu não digo isso com indignação! Indignação é privilégio de quem ainda tem expectativa. E eu não tenho.
Mas, se você também é bonzinho, talvez seja hora de revisar seus “sins automáticos”.
Porque bondade sem limite não é virtude. É ingenuidade.
E ingenuidade, no mundo real, tem um nome muito claro: Bonzinho.
E bonzinho, você já sabe…
Só se fode.
Com amor, carinho e um pouquinho de ódio,
Mike Sakko! 😉